Foto: Arquivo/AC (São Gabriel da Cachoeira
registra os maiores índices do Brasil)
Ainda há incertezas sobre os fatores, que
podem envolver questões culturais, mas os altos índices acenderam o alerta das
autoridades de saúde; foram 128 registros só em 2017
Izabel Guedes/Acrítica
Problema de saúde pública, o suicídio vai
ser, neste mês, o assunto de oficinas realizadas em três municípios do
Amazonas. Os encontros, promovidos pelo Comitê Gestor de Prevenção ao Suicídio,
pretendem não só discutir a temática, como preparar os diversos profissionais
da área da saúde e educação a lidar e identificar a problemática que atinge
muitos jovens indígenas no Amazonas. Os encontros acontecerão em preparação
para a campanha “Setembro Amarelo”, que tem como foco a conscientização
sobre a prevenção do suicídio em todo o Brasil.
No Estado, uma das maiores preocupações dos
especialistas está ligada ao suicídio indígena, devido os números de casos
estarem crescendo, conforme dados do último relatório divulgado pelo Conselho
Indigenista Missionário (Cimi). Foram mais de 128 registros de suicídio
entre os povos indígenas, somente em 2017.
A prática, no caso das culturas indígenas,
pode esta relacionada a questões de conflitos de terras e até entendimentos
religiosos e culturais. O que ainda não tem, segundo especialistas, nenhum tipo
de fundamento confirmado em pesquisas ou estudos do tipo.
Novos dados
A antropóloga Lúcia Helena Rangel conhece bem
a temática e já participou de vários debates sobre o assunto. Segundo ela,
novos dados devem ser divulgados ainda esse ano e já são superiores aos do
último levantamento. “Todos os anos, fazemos um relatório de violência contra
os povos indígenas. É nesse relatório que a gente constatou um alto grau de
suicídio. No começo, notou-se que tinham situações mais localizadas. Nesses
relatórios, fomos observando que começou com uma etnia especifica, mas uma
coisa que começou até comportamental e, em determinado momento, começou a
aparecer em outros povos. Vamos publicar em breve um relatório de 2018.
Conseguimos outros dados que mostram que os números aumentaram e isso
deve ser divulgado nos próximos meses”, explica.
No sentido antropológico, a especialista
ressalta que muitos casos podem ter relações, por exemplo, com o entendimento
de vida e morte por parte de alguns grupos indígenas, porém não se tem um dado
concreto sobre tal motivação. “O suicídio é muito difícil de explicar. Então,
tem que ter bastante calma e cautela para poder analisar esses casos. No caso
dos índios, isso acaba se tornando mais preocupante, merece um olhar
diferenciado, por não ter o mesmo contexto da área urbana, onde existem vários
fatores sociais que podem acabar implicando nisso”, observou.
Para a pscóloga Melina Lima, assim como
na população em geral, a questão é um fenômeno complexo e multfatorial no
contexto indígena. “Alguns aspectos são relacionados ao acesso a terra,
conflitos geracionais e familiares, o contato com a sociedade envolvente e
outros fatores que envolvem a concepção de morte e doença por essas culturas.
Tem a questão cultural que é diferente para eles. Eles possuem modelos
explicativos próprios sobre a questão da morte, do adoecimento psíquico, então
isso acaba adquirindo um caráter diferente”, disse ela, que é coordenadora do
projeto para promoção da saúde, vigilância, prevenção e atenção integral
relacionada ao suicídio da Secretaria de Estado de Saúde (Susam).
Melina ressalta que a questão no contexto
indígena é importante e preocupante porque o índice de suicídio nessa população
chega a ser três vezes maior do que na população não indígena. “Ele acontece
também em uma faixa etária menor que da população não indígena. Sendo os
maiores índices entre jovens de 10 a 19 anos”, disse.
Liderança indígena em uma comunidade da etnia
Yanomami, Francisco Xavier diz que as ocorrências em São Gabriel da Cachoeira
(que tem o maior índice do País) podem estar atribuída ao contato com as
pessoas não indígenas. “Tivemos um caso que a pessoa tinha consumido bebida
alcoólica. Esse contato com outras pessoas traz coisas ruins para a nossa
comunidade, como álcool, drogas. Por isso a gente tem essa preocupação, com
essa proximidade, invasões da nossas terras”, comentou.
Três vezes maior
Segundo dados do Ministério da
Saúde, o Brasil registrou uma média nacional de 5,7 óbitos para 100 mil
habitantes. Na população indígena, foi registrado um número de óbito três vezes
maior que a média nacional – são 15,2. Destes registros, 44,8% são suicídios de
crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos.
Política nacional
De acordo com informações divulgadas pelo
Ministério da Saúde em abril deste ano, foi sancionada a lei federal nº
13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e
do Suicídio.
A legislação prevê que as tentativas de suicídio e as ocorrências envolvendo violência autoprovocada também sejam notificadas pelas instituições de ensino, públicas e privadas. A medida busca ampliar o sistema de notificação, visando o aperfeiçoamento de políticas públicas de atenção e cuidado.
Procurados pela reportagem de A Crítica, o órgão informou que
entre as estratégias estruturadas pela Sesai para o enfrentamento do fenômeno
do suicídio está a implementação da vigilância epidemiológica nos Dsei’s, por
meio da qual é realizada a coleta, organização e análise dos dados sobre os
eventos, assim como ações com grupos de apoio nessas localidades.
Ações em três municípios
O Comitê Gestor de Prevenção ao Suicídio no
Amazonas foi criado em maio de 2018 para planejar as ações do
projeto a partir do grupo de trabalho relacionado ao suicídio e iniciou as
atividades em janeiro. Os municípios escolhidos para a realização das oficinas
lideram foram Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga.
Foram escolhidos por liderarem as ocorrências
do tipo no estado. São Gabriel, por exemplo, é uma das cidades brasileiras que
lidera as estatísticas de suicídio por habitantes dos municípios brasileiros,
segundo dados do Ministério da Saúde.
Para a psicóloga Melina Lima, o tema preocupa
uma vez que 70% da população de São Gabriel da Cachoeira é considerada
indígena. “É um problema de saúde publica que vem aumentando no mundo todo. Por
isso a importância de falar sobre, preparando as pessoas para o cuidado ao
outro. É importante porque, na medida em que a gente conhece como cuidar
melhor, essas taxas reduzem, então falar sobre, conhecer e saber cuidar diminui
o índice de suicídio. Isso é fato”, afirmou.
O assunto vai ser um dos pontos tratados nas
oficinas que serão ministradas por diferentes profissionais, segundo a
especialista. “Tem psicólogos da Secretaria Especial de Saúde Indígena,
antropólogos, assistentes sociais”, detalhou ela. “Os temas estão relacionados
à saúde mental, acolhimento nas ações de atenção e gestão nas unidades de
saúde, saberes tradicionais, consumo de álcool e drogas como um fator de risco
de suicídio e muitos outros”, explicou a psicóloga.
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