21/06/2017, quarta-feira
Foto: Agência Brasil (Intervenções
governamentais não interferem nos interesses econômicos)
Intitulada ‘Degradação e preservação: uma
análise histórico-econômica das ocupações humanas na Amazônia’, a pesquisa
aponta que a destruição da floresta está relacionada ao mercado
São Paulo – As políticas
ambientais pensadas para a Amazônia são paliativas e as políticas de cunho
desenvolvimentistas favorecem mais aos grupos econômicos externos à região do
que aos amazônidas. É isso que afirma o pesquisador Michel Cantagalo, autor de
uma tese de doutorado sobre o tema pela Escola Superior de Agricultura Luiz de
Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba.
Intitulada Degradação e preservação: uma
análise histórico-econômica das ocupações humanas na Amazônia, a pesquisa
aponta que a destruição da floresta está diretamente relacionada à entrada e ao
avanço do sistema de mercado na região.
Segundo Cantagalo, as intervenções
governamentais na região são para maquiar os problemas, sem interferir nos
interesses econômicos. “Quando surgem as políticas ambientais para a região,
elas são simplesmente para tentar corrigir um desmatamento, nunca para propôr
um desenvolvimento para a região, nunca para focar na autonomia ou nas potencialidades
específicas daquela população. É sempre uma tentativa de modernizar, mas no
sentido de tornar tecnológico e incluir em mercados globais, nunca de olhar
para a região com suas especificidades”, aponta.
Lógica de desenvolvimento cria os chamados’
mercados artificiais
O sistema de mercado apontado por Cantagalo
em sua tese é aquele conceituado pelo estudioso austríaco Karl Polanyi. “Não é
o que as pessoas usualmente chamam de capitalismo. O que Polanyi aponta é que
até um pouco antes da revolução industrial havia um sistema que era guiado pelo
tempo humano. Com a inserção das máquinas na economia, acontece uma
financeirização. As demandas aumentam, a necessidade de produzir aumenta e
passa a existir um excedente de mão de obra. Também se acelera a transformação
das terras em áreas privadas e produtivas”, aponta o pesquisador.
Com essa nova lógica, criam-se “mercados
artificiais”. “Agora o objetivo da produção é a riqueza, o que gera uma
economia artificial. Para Karl Polanyi, mercadoria é apenas aquilo que foi
produzido para ser vendido. Terras não foram produzidas para serem vendidas;
trabalho não foi produzido para ser vendido, moeda também não. Esses são os
três primeiros mercados artificiais, depois surgiram outros”, esclarece
Cantagalo. Segundo o pesquisador, como o meio ambiente não se configura como
mercadoria, por não ser escasso para o sistema produtivo, ele é deixado de lado
em prol da viabilização do mercado.
A bibliografia relacionada à degradação da
floresta amazônica levanta teses diversas para explicar os motivos que causaram
a situação. Segundo Cantagalo, uma das principais aponta que houve,
simultaneamente, um governo que acelerou o processo econômico na região e que
foi ausente no momento de guiar esse processo, tornando-o fora de controle.
Para o pesquisador, as soluções
apresentadas pela literatura para resolver a questão amazônica não têm como
existir na prática. “A minha tese, de que a culpa é do sistema de mercado, que
é simplesmente um processo civilizatório da Amazônia, vem para mostrar que está
se ignorando o pano de fundo. As soluções que a literatura propõe precisariam
que você tivesse poderes sobre o sistema de mercado, que existisse um interesse
público que fosse contra as determinações do mercado”, explica. “Sugerem que se
proíba a pecuária na Amazônia, mas como você vai fazer isso? Quem tem poder de
fazer isso? O próprio governo não tem o poder de fazer isso. A questão da
madeira, tem que fiscalizar e fazer a lei valer lá. Mas quem fará isso? Como
propomos algo que ninguém pode realizar? Ninguém tem poder de realizar o que a
literatura sugere”, questiona o pesquisador.
Com informações de agências/redacao@diarioam.com.br
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