Grupo de 13 pesquisadores do Amazonas encerra período de doutorado em Pelotas e retorna ao Alto Solimões
Foto: RádioCom 104.5fm
05/05/2026, terça-feira
Um grupo de 13 professores e pesquisadores da região do Alto Solimões, no Amazonas, está em Pelotas desde o dia 21 de março para cursar disciplinas de doutorado na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), por meio de um intercâmbio interinstitucional entre o Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da UFPel e o Instituto de Natureza e Cultura (INC) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). O grupo encerra as atividades esta semana e começa a retornar ao Amazonas.
O professor Antônio Vagner Olavo, do Instituto de Natureza e Cultura da UFAM, foi o convidado do Edição da Manhã desta quinta-feira para falar sobre o intercâmbio, os desafios do ensino superior federal no extremo da Amazônia e a experiência de conviver com a realidade acadêmica e cultural de Pelotas.
Intercâmbio na fronteira do conhecimento
O grupo que chega a Pelotas é formado por 13 pesquisadores vinculados a três instituições do Amazonas: o Instituto de Natureza e Cultura da UFAM, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Instituto Federal do Amazonas (IFAM). A parceria com o PPGE da UFPel permitiu que todos cursassem disciplinas de doutorado presencialmente na cidade, em um formato de aulas modulares concentradas em pouco mais de um mês.
Antônio Vagner explica que o período foi aproveitado ao máximo. “A gente se animou e fez até um pouquinho mais”, contou. As disciplinas cobriram teorias e políticas públicas voltadas à construção das teses do grupo.
Além da formação acadêmica, o intercâmbio proporcionou trocas culturais que Antônio considera tão importantes quanto o conteúdo das aulas. “Muita coisa que vemos nos livros de história, conseguimos ver de perto em visitas pela cidade, o que expandiu bastante o nosso conhecimento”, afirmou.
Universidade na tríplice fronteira
O Instituto de Natureza e Cultura da UFAM fica em Benjamin Constant, município do Amazonas localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. A unidade surgiu de um longo processo de mobilização: ainda nos anos 1990, professores locais, lideranças indígenas e políticos da região iniciaram um movimento para levar o ensino superior ao Alto Solimões, área composta por nove municípios e historicamente distante dos centros acadêmicos do país.
O campus se consolidou a partir do programa Reuni e completou 20 anos em 2025. Hoje oferece seis cursos — quatro de licenciatura e dois de bacharelado — e caminha para um sétimo, na área de direito, escolhido pela própria população por meio de consulta pública. “Foi toda uma consulta que a gente fez, desde a ideia de um curso até o projeto final, a população que aprovou”, destacou Antônio Vagner.
O perfil do campus é singular: cerca de 70% a 80% dos estudantes são indígenas, de etnias como Ticuna, Kokama, Kambeba, Kaixana e Marubo, além de alunos provenientes de Peru e Colômbia com naturalização brasileira. Ao todo, o instituto já formou mais de 1.600 alunos e atende hoje cerca de mil estudantes matriculados.
Educação e cultura indígena
Integrar a educação formal à cultura dos povos da região é um dos principais compromissos do instituto. As comunidades indígenas são parceiras históricas da universidade, e os próprios estudantes se organizaram para fortalecer essa relação: criaram o Movimento Indígena do Instituto de Natureza e Cultura, responsável por iniciativas como a Semana dos Povos Indígenas, realizada há poucas semanas e organizada inteiramente pelos próprios estudantes.
No currículo, o instituto tem buscado incluir disciplinas como educação indígena, voltadas especialmente aos cursos de licenciatura, cujos formandos em sua maioria retornam para atuar nas comunidades de origem. Para o professor, o caminho passa pelo diálogo constante. “A gente tem buscado sempre no diálogo, sempre na construção coletiva essa aproximação para fazer que o estudante indígena se sinta cada vez mais em casa”, afirmou.
Ao concluir a graduação, boa parte dos estudantes permanece na região. Muitos retornam aos seus municípios ou comunidades indígenas e ingressam nas redes de ensino locais. “A gente fica muito feliz quando o estudante consegue retornar e contribui direto com a sua comunidade”, disse Antônio Vagner. A pesquisa também cumpre esse papel: é comum que os trabalhos de conclusão de curso sejam desenvolvidos dentro das próprias comunidades.
O custo de ensinar no coração da Amazônia
Manter um campus universitário no extremo da Amazônia exige enfrentar obstáculos que vão muito além dos desafios comuns a outras instituições federais. O principal deles é a logística: Benjamin Constant fica a seis ou sete dias de barco de Manaus, e o acesso aéreo, embora mais rápido, ainda exige um trajeto de barco até o campus.
A isso se soma o chamado custo amazônico, que considera as despesas extras de logística e materiais na região. O campus recebe pouco mais de dois milhões e meio de reais por ano, mas cerca de 80% desse valor é destinado a terceirizados, deixando poucos recursos para manutenção e desenvolvimento. “O preço do cimento lá na região é diferente do preço do cimento em São Paulo ou em Brasília”, exemplificou o professor.
O clima também impõe desafios: tanto a seca extrema quanto as grandes cheias do rio podem isolar a cidade. Em 2015, a parte central de Benjamin Constant ficou completamente alagada. Somam-se ainda a falta de docentes e técnicos — o campus foi planejado para 100 professores e 70 técnicos, mas conta hoje com 66 e 31, respectivamente — e o desejo institucional de se tornar universidade, o que permitiria maior autonomia e recursos para enfrentar essas realidades.
Pelotas vista de longe, vivida de perto
O último dia do grupo em Pelotas foi marcado por emoção. Antônio Vagner conta que ele e a esposa, que veio junto para a cidade, passaram a véspera da partida repassando a experiência. “Foi um dia de lágrimas nos olhos — a gente amou as pessoas daqui”, resumiu. Para o professor, o acolhimento foi um dos aspectos que mais marcou a passagem pela cidade, desde a orientadora que foi buscá-lo na rodoviária até os colegas que os levaram para conhecer pontos históricos como as Charqueadas.
A recepção do PPGE também foi destacada. Antônio Vagner fez questão de agradecer publicamente a orientadora, professora Valdeleine Mendes, a coordenação do programa e os colegas de doutorado. Para ele, o suporte recebido facilitou não só a adaptação acadêmica, mas também a imersão na cidade.
A diferença climática também rendeu histórias. Acostumado a mínimas de 16 graus no Amazonas, o grupo encontrou em Pelotas madrugadas de 6 ou 7 graus — temperatura que, brinca ele, na região de origem já faria todo mundo andar de cachecol. Apesar disso, a experiência foi descrita como rica e transformadora, e o grupo parte levando aprendizados que, nas palavras do professor, certamente vão expandir os pensamentos de todos na região de origem.
Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.
Fonte: RádioCom 104.5fm
