Fotos:
Divulgação
13/02/2020,
quinta-feira
Jane e Admilson, da etnia Tikuna,
deveriam participar de casamento coletivo indígena, parto impediu casal de se
deslocar ao evento
De
Em Tempo
Benjamin
Constant- Dois casamentos civis foram celebrados na casa dos noivos nesta
quarta-feira (12/02), na comunidade Porto Alegre, Benjamin Constant, por causa
da impossibilidade das mulheres se deslocarem para uma das cerimônias do
casamento coletivo que acontecem na cidade.
Jane
Lázaro Inácio Ticuna, de 21 anos, deu à luz seu terceiro filho quando faltavam
sete horas para o início da celebração em que estava previsto o casamento dela
com Admilson Bibiano Pedro, 22, na comunidade Feijoal, localizada a 15 minutos
de lancha do local onde vivem e a cerca de uma hora da sede do município.
"Eu mandei recado e o cacique avisou", contou Admilson, que ficou
preocupado com a chance de não oficializar o matrimônio.
Uma
equipe da Defensoria
Pública do Estado (DPE-AM), que organiza o casamento coletivo
em parceria com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e outros órgãos, foi para
a casa dos noivos junto com a juíza Luiziana Teles Feitosa Anacleto. Com a
ajuda de um intérprete da etnia Tikuna, o casamento aconteceu no quarto dos
noivos, onde o filho mais novo do casal, ainda sem nome, havia nascido horas
antes.
Durante
a cerimônia, Jane, que se recuperava do parto, permaneceu sentada no chão.
Admilson vestiu um terno e permaneceu ao lado da noiva rodeada pelos outros
dois filhos.
"Como
magistrada, sinto-me honrada em poder participar desse evento tão sublime e
grandioso, um verdadeiro ato de cidadania. Sair do ambiente forense, atravessar
os rios do Amazonas é uma experiência ímpar e reafirma o respeito que o poder
judiciário nutre pelos povos indígenas, o reconhecimento de suas crenças e
contribui para o consolidação do estado democrático e plurietnico", afirmou
a juíza.
Diabética
que amputou a perna também casou
Luiza
Gaspar Ferreira, 66, é diabética e teve que amputar o pé direito há uma semana,
após uma ferida não se cicatrizar. Ela e Armando Santo Guedes, 63, se casaram
na própria residência, na comunidade Porto Alegre, também diante da dificuldade
da noiva se deslocar para o casamento coletivo na comunidade Feijoal.
Com
a ajuda do intérprete Tikuna, Armando contou que o casal pretendia realizar o
casamento civil para garantir direitos previdenciários na eventual morte de um
dos noivos, considerando a idade dos dois.
“Percebemos
que os indígenas querem muito além do direito de oficializar um matrimônio e
ter em mãos uma certidão de casamento. De forma eficiente, eles estão chamando
a atenção do Estado para acessar outros direitos”, disse o defensor público
geral do Amazonas, Rafael Barbosa. “Está claro que estão articulados e
conscientes na luta por sobrevivência e para preservação da sua cultura. No que
depender da Defensoria, terão apoio irrestrito”.
Casamento
coletivo
Indígenas
Tikuna e Kokama estão formalizando o matrimônio em um casamento coletivo, nesta
semana, com mais de 800 casais em Benjamin Constant. As celebrações acontecem
desde terça-feira (11/02) e terminam nesta quinta-feira (13). O casamento é organizado
pela DPE-AM em parceria com a Funai, a Corregedoria Geral do Tribunal de
Justiça do Amazonas (TJ-AM), a Prefeitura de Benjamin Constant e o Governo do
Estado do Amazonas.
Os
casais vivem em 35 comunidades e foram divididos para quatro cerimônias, que
acontecem nas comunidades Feijoal, Filadélfia, Guanabara 3 e São Leopoldo. As
celebrações respeitam as tradições culturais dos indígenas, que, com a
iniciativa, conseguem oficializar o casamento civil de maneira gratuita.
O
casamento coletivo também conta com o apoio do Exército Brasileiro, da Marinha
do Brasil, do Batalhão de Polícia Militar de Tabatinga e do Distrito Sanitário
Especial Indígena do Alto Solimões (DSEI-ARS). As instituições estão dando
suporte logístico e de estrutura para a realização das cerimônias, que ocorrem
em locais de difícil acesso.
Localizada
na região da tríplice fronteira (Brasil-Peru-Colômbia), Benjamin Constant
concentra 16 mil indígenas entre Tikunas e Kokamas, segundo a Funai.
*Com informações da assessoria
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