Foto: “J.Rosha/Cimi (Os invasores já deram
recado que não vão parar”, diz liderança. Os povos indígenas do Vale do Javari
vão resistir).
1º/10/2019, terça-feira
“A situação mais grave, que deixa a gente com
medo, inclusive os servidores da Funai, é o medo de ser assassinado”, diz
Adelson Korá
POR J.ROSHA, DA ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO –
CIMI REGIONAL NORTE I
“O problema mais grave que nós enfrentamos
aqui no Vale do Javari, agora, não são nem as invasões. São as ameaças de
morte”, diz Adelson Korá Kanamary, coordenador da Associação Kanamary do Vale
do Javari (Akavaja), e também vereador do município de Atalaia do Norte (AM).
Após o assassinato de Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da Fundação
Nacional do Índio (Funai), em Tabatinga, no dia 6 deste mês, alguns servidores
do órgão, que atuam nas frentes de proteção localizadas no interior da terra
indígena Vale do Javari, estão pedindo para sair.
“A situação mais grave, que deixa a gente com
medo, inclusive os servidores da Funai, os colaboradores indígenas, pois estes
correm mais perigo, e até quem trafega pelos rios, é o medo de ser
assassinado”, destacou Adelson Korá. “Os invasores já deram recado que não vão
parar”, disse ele, acrescentando: “os caras da Funai já correram. Quem quer
morrer de graça?”.
Na última terça-feira, 24, a União dos Povos
Indígenas do Vale do Javari (Univaja), divulgou
uma nota onde denuncia que “o controle e fiscalização da nossa terra
está gravemente em risco, uma vez que o atual governo de Jair Bolsonaro (PSL)
tem mantido e fortalecido uma política de desmonte, desestruturação e
sucateamento do principal órgão indigenista do país a Funai, vinculado ao
Ministério da Justiça”.
As lideranças indígenas do Vale do Javari
pontuam ainda que “estas medidas adotadas têm um reflexo direto na vigilância
de nosso território e na vida de nossas comunidades. Vivemos um tempo de
retrocessos, e ataques cotidianos aos direitos conquistados e a intensificação
de uma agenda e política anti-indígena”.
Na nota, os indígenas relatam os
acontecimentos recentes, como o assassinato de Maxciel Pereira dos Santos, e os
ataques à Base de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari. A última aconteceu
no dia 21 de agosto. Segundo relatos das lideranças locais, o ataque teria
acontecido na Base de Proteção do rio Itacoaí/Ituí, onde outros aconteceram
desde novembro do ano passado.
“No ato criminoso, os bandidos efetuaram
vários disparos com nítido propósito de atingir os poucos servidores públicos
ali lotados para exercerem suas atividades em nome do Estado e, naturalmente,
intimidar a atuação de fiscalização territorial naquele lugar”, denuncia a
Univaja.“Tudo isso é muito preocupante porque os invasores são pessoas que nós
conhecemos e que também nos conhecem”, diz Adelson Korá.
A nota da Univaja é um pedido de socorro para
que o Estado Brasileiro cumpra suas obrigações constitucionais. Denunciam
também que, por falta de fiscalização, missionários evangélicos estariam
entrando nas comunidades indígenas sem autorização das lideranças e do órgão
indigenista.
A Terra Indígena Vale do Javari já foi
demarcada, homologada e registrada no Serviço de Patrimônio da União (SPU). Ali
vivem seis povos conhecidos: Marubo, Kanamary, Kulina, Tsonhom Djapa, Matis e
Mayoruna – Matsés, além de outros 18 sem contato com a sociedade envolvente, de
acordo com informações da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do
Javari.
Mesmo depois de regularizada, a Terra
Indígena vem sofrendo ataques de madeireiros, pescadores, caçadores garimpeiros
e traficantes. Os indígenas dizem que a parte sul do território, na divisa com
o estado do Acre, é a mais vulnerável. Fazendeiros estariam avançando sobre a
Terra Indígena devido a falta de fiscalização e de controle.
Em setembro de 1989, um grupo do povo Korubo,
àquela época ainda sem nenhum contato com a sociedade envolvente, foi
massacrado por invasores e seus corpos enterrados em cova rasa numa das praias
do rio Itacoaí. Em 2017, veículos de imprensa do Amazonas divulgaram a
ocorrência de um suposto massacre também de índios isolados no rio Jandiatuba,
investigado pelo Ministério Público Federal (MPF).
“A pior situação aqui é a segurança. Os caras
estão se revoltando contra nós. Eles são de Benjamin Constant, Tabatinga e
Atalaia do Norte e estão querendo a riqueza que tem na terra”, observa Adelson
Korá. O indígena alerta que essa matança, envolvendo agora servidores dos
órgãos de proteção aos indígenas, pode se tornar uma prática corriqueira na
região.
Fonte: Assessoria de Comunicação - Cimi
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