Foto: CGIIRC/Maloca de índios isolados na
Terra Indígena Vale do Javari
O Ministério Público Federal do Amazonas
confirmou nesta sexta-feira (08/09) à agência Amazônia Real um dos dois
massacres em investigação pela Polícia Federal contra índios isolados na Terra
Indígena Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas. As mortes por garimpeiros
dos índios conhecidos como “flecheiros” aconteceu no mês de agosto no rio
Jandiatuba, afluente do rio Solimões, no município de São Paulo de Olivença, na
fronteira com Peru e Colômbia.
A outra investigação é sobre as mortes de
índios isolados Warikama Djapar, mas não confirmadas ainda pelo MPF. O caso,
que aconteceu também na TI Vale do Javari entre os rios Jutaí e Jutaizinho, no
mês de maio, foi denunciado por índios da etnia Kanamari. O suspeito de
mandante seria um produtor agrícola.
Para não prejudicar as investigações sobre
as mortes dos índios “flecheiros”, tanto o MPF quanto a PF não informaram à
reportagem dados importantes para o entendimento do caso como: quantos índios
foram assassinados no ataque e por quais armas, além de quantos garimpeiros estão
envolvidos no crime, que pode ser tipificado como genocídio contra uma etnia
indígena. Mas, objetos dos índios foram encontrados com garimpeiros por agentes
federais. Em um áudio de celular, apreendido, a polícia encontrou relatos de
garimpeiros sobre o massacre.
“Confirmamos que houve as mortes dos índios
isolados e o MPF e a PF estão investigando”, disse comunicado da assessoria de
imprensa do MPF à reportagem da Amazônia Real.
Em entrevista, o procurador da República
Pablo Beltrand, autor do pedido de abertura de inquérito à Polícia Federal,
disse que “algumas pessoas (garimpeiros) estão sendo ouvidas e há diligências
em curso. Não temos como dar detalhes sobre elas, no atual momento, para não
atrapalhar a investigação”, afirmou.
A denúncia da morte dos índios isolados
“flecheiros” por garimpeiros aconteceu no mês de agosto e foi realizada pela
Coordenação Regional da Funai em Tabatinga. Índios ouvidos pela reportagem
disseram que o número de mortos ultrapassa 20 pessoas.
Com a confirmação do massacre dos índios
“flecheiros” pelo MPF do Amazonas, o caso passa ser considerado a maior
tragédia contra indígenas que vivem sem contato com a sociedade nacional da
Amazônia brasileira após os assassinatos de 16 índios Yanomami da aldeia
Haximu, em Roraima, por garimpeiros que invadiram a
reserva para exploração ilegal de ouro, em 1993. Na ocasião, a Funai demorou
para confirmar o número de mortes do massacre, que teve repercussão
internacional.
Até o momento a Presidência da Fundação
Nacional do Índio (Funai), em Brasília, não confirma o massacre de índios
isolados “flecheiros” na TI Vale do Javari. O Ministério da Justiça, que também
foi procurado pela reportagem, não se pronunciou ainda. Também não há
informação se o Exército brasileiro irá apoiar as investigações, que acontecem
em uma região de difícil acesso. Só helicópteros podem pousar e decolar nesta
região de floresta densa da Amazônia.
A notícia dos massacres na TI Vale do
Javari motivou uma operação conjunta do MPF, do Exército e do Ibama para
destruir garimpos no rio Jandiatuba, em São Paulo de Olivença, entre os dias 28
de agosto e 1º de setembro passado. Na operação foram
destruídas dragas de garimpo ilegal de ouro, um
equipamento que custa R$ 1 milhão cada, o que tipifica que há uma grande
corrida de minérios na região apoiada por empresários e políticos locais.
São Paulo de Olivença fica distante a 988 quilômetros de Manaus.
Na última quarta-feira (06/09) dois
garimpeiros, que foram detidos na operação no rio Jandiatuba, prestaram
depoimentos no inquérito que apura as mortes dos índios “flecheiros” na
Delegacia da PF, no município de Tabatinga (distante a 80 km de São Paulo de
Olivença em viagem de lancha).
Com eles, agentes federais apreenderam
espingardas, além de objetos que teriam sido furtados dos índios “flecheiros”
mortos.
Os dois garimpeiros detidos foram soltos
depois que prestaram depoimentos. A PF em Tabatinga não informou por que eles
foram liberados e se têm ou não participações no massacre dos índios isolados
no rio Jandiatuba.
Os homens ouvidos seriam os fornecedores de
alimentação para os garimpeiros, além de operarem nas dragas das frente ilegais
de exploração de ouro na TI Vale do Javari.
Site Amazônia Real - Elaíze Farias
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