#Tabatinga-AM - Saiu no Estadão: Ticunas vivem num lixão da tríplice fronteira

9/6/2016, quinta-feira

Fotos: Estadão (De cima para baixo: 1 -  menino Marcelo Ticuna, no lixão de Tabatinga, no Amazonas. Dida Sampaio/AE, 2 – Ticuna no lixão Dida Sampaio/AE)

Em uma série de reportagens chamada Favela Amazônia, um dos jornais mais lidos Estadão faz uma série de reportagens falando sobre a Amazônia, especificamente de nossa região. Confira.

Sem opções de renda, índios catam latinhas e comem restos de alimentos da cidade de Tabatinga

É começo de tarde em Tabatinga, principal cidade do Alto Solimões, no Amazonas, fronteira com a Colômbia e o Peru. Nessas margens de rios e igarapés, mora boa parte dos índios da etnia ticuna, a maior do Brasil. São 46 mil pessoas que se espalham pelas cidades brasileiras e por margens de rios dos países vizinhos. A proximidade das aldeias com o centro urbano de Tabatinga praticamente transformou as terras desses índios em bairros periféricos.

Não há, porém, integração dos ticunas com o mercado de trabalho. A situação não é mais fácil para ribeirinhos e brancos pobres. Em 2002, a cidade tinha 22 mil moradores. Hoje, o Exército continua sendo o maior empregador do município, com cerca de mil militares, seguido de outros órgãos públicos. Não houve expansão de lavouras nem chegada de investimentos produtivos. A cidade, porém, tem agora 60 mil habitantes.

O IDH de Tabatinga é de 0.616, o mais alto da região do Alto Solimões. Esse índice tem por base a expectativa ao nascer, o acesso ao conhecimento e o padrão de vida. A média dos municípios do Alto Solimões é de 0.533, considerada baixa pelas Nações Unidas. Para efeito de comparação, trata-se de um índice inferior aos de favelas do Rio de Janeiro, como o Complexo da Maré (0.686) e o Morro Dona Marta (0.684).

A agricultura de Tabatinga não supre a demanda dos restaurantes e mercearias. As hortaliças e verduras vêm do lado peruano. A comerciante e pequena produtora rural Dira da Silva Silfuentes, de 46 anos, sugere à equipe de reportagem uma visita ao bairro Santa Rosa onde produz hortigranjeiros. Ela diz que a comunidade sofre com um lixão aberto pela própria prefeitura. No dia seguinte, fomos ao local, a dez quilômetros do centro de Tabatinga.

O lixo da cidade é descarregado numa área que inclui lotes públicos e até ruas do bairro. Um riacho de chorume, uma água escura, desce pelos igarapés do Tacana e do Umurutama até desembocar no Solimões, na altura da comunidade indígena Belém do Solimões. Os pequenos agricultores usam água de poços artesianos para cuidar de suas hortas e criações.

Marcelo Ticuna, de 9 anos, disputa com índios adultos os melhores lixos e latinhas de alumínio despejados em Santa Rosa por comerciantes e funcionários da prefeitura. O corpo franzino desaparece entre as revoadas de urubus e as curvas da montanha de dejetos, móveis velhos, ferros, plásticos e material em decomposição.

A mãe, Rosa, também trabalha no lixão. Com problemas de pressão, ela, porém, recolhe-se de tempo em tempo numa barraca improvisada de lona. Ali, também dá atenção a três outros filhos menores. A família mora em Letícia, no lado colombiano. Chega às 8 da manhã no lixão e trabalha nele até as 17 horas.

Helena Januário Caetano, de 51 anos, índia da Aldeia Umariaçu, encostada ao centro de Tabatinga, também chega cedo ao lixão. Por volta das 7 da manhã começa a trabalhar. O marido está doente e o único filho, desempregado. Para ajudar no sustento da casa, ela ainda roça lotes. Antônio Ticuna, de 40, pai de cinco filhos, é outro índio que depende do lixão. "De onde eu vou tirar dinheiro para comer? Às vezes, a gente consegue tirar R$ 5, R$ 2 por dia. Às vezes, tem de voltar com fome para casa."

Suja e violenta. Nos três primeiros meses de 2015, nove pessoas foram assassinadas em Tabatinga. Foram 17 mortos em 2014, 27 em 2013 e 47 em 2012. Pelas contas da Polícia Militar, 80% dos casos tiveram como causa o tráfico de drogas, especialmente o acerto de contas. "O comprador de entorpecente quando não paga à vista perde a vida", diz o major Huoney Herlon Gomes, comandante do 8.º Batalhão da Polícia Militar do Amazonas, que responde pelo Alto Solimões, uma área de 260 mil pessoas. "Aqui não há latrocínio. Há o crime de pistolagem mediante pagamento do tráfico."

Até o ano retrasado não havia Corpo de Bombeiros em Tabatinga. Ainda não há Departamento de Trânsito. A rede de esgoto e água é apenas um projeto. A cidade é formada por ruas e ruelas cortadas por canais de detritos. "Aqui é um ponto estratégico do Estado Brasileiro", diz Herlon. "Mas a economia não gera recursos para a prefeitura."

Barracos são erguidos da noite para o dia. Uma dezena deles apareceu em cima de um igarapé que vai desembocar no Solimões, no bairro Dom Pedro. O agricultor Barnabé Oliveira, de 54 anos, conta que está no bairro desde os anos 1990. Ele mostra as casas levantadas por cima das águas. "Interromperam o curso do igarapé", diz.

Com a cheia do Solimões no último mês de maio, as águas inundaram os barracos e moradores tiveram de deixar suas casas. Para agravar o problema, o lixo despejado em trechos mais acima do igarapé é represado nas casas. "Todo dia chega gente para fazer sua casinha. Geralmente é peruano. O pessoal está atravessando a fronteira porque o dinheiro deles ficou mais valorizado e o custo de vida lá aumentou."


Texto retirado do Site do Estadão

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