Folclore - Mito Ticuna da Criação do Mundo





A onça come Ngutapa

Passaram-se alguns anos. Naquele tempo, as pessoas imortais, ü-üne, cresciam muito depressa. Por isso, os filhos de Ngutapa logo ficaram grandes. Um dia, Ngutapa saiu para pescar com timbó e Yoi e Ipi foram caçar no mato. Enquanto Ngutapa pescava, um espinho entrou em seu pé. Estava tirando esse espinho, quando uma onça chegou por trás c o engoliu.
Quando Yoi e Ipi voltaram da caçada, não encontraram o pai em casa. Eles não sabiam o que tinha acontecido e ficaram preocupados então perguntaram para Mapana: Vovó, onde está nosso pai? Ela disfarçou e respondeu outra coisa: Vassoura rodou. E eles de novo: Cadê nosso pai? Nós queremos saber o que aconteceu com ele.

O dente de cotia rói  - ela disse.

Mas onde está nosso pai?

Vassoura rodou - falou Mapana novamente. Depois deles insistirem muito, ela acabou contando: A cinza, tau’ü, caiu em cima do pai de vocês. Com essas palavras, Yoi e Ipi entenderam que a onça havia comido Ngutapa. Ipi, que sempre falava primeiro, disse para Yoi: Irmão, irmão, o que nós vamos fazer para encontrar nosso pai? Vamos tirar um cabelo de nossa irmã e com ele dar uma volta ao redor do mundo todo.

Calma lá - disse Yoi. Yoi pensava mais para resolver as coisas. Ipi insistia: Irmão, irmão, vamos tentar fazer isso? Mas antes Ipi resolveu fazer uma cerca e Yoi concordou. Yoi pensou nas estacas e elas apareceram. Depois de aprontarem tudo, a cerca, a porta, eles tiraram um fio de cabelo de Mowatcha (Mowatcha era a irmã que saiu do mesmo joelho que Yoi). Com esse fio, eles deram a volta no mundo e juntaram as duas pontas na porta da cerca. Aí foram puxando as pontas do cabelo e apertando o mundo. As águas vieram atrás, como uma alagação. Depois disso, Yoi ficou de um lado da porta e Ipi, com sua irmã Aicüna, do outro lado (Aicüna era a irmã que saiu do mesmo joelho que Ipi). Os bichos começaram a passar. Primeiro os caititus. Depois os veados. E depois outros veados. Depois vieram as queixadas e as onças vermelhas. Só no fim começaram a passar as onças mesmo. Yoi desconfiou que entre essas onças estaria aquela que havia comido Ngutapa. E perguntou a uma delas: Vovó, você pode me dizer onde está aquela nossa inimiga? A onça respondeu: Ela está lá no final. Mandou Yoi escutar uma voz que vinha lá de trás, gritando. Era a onça que vinha soprando no bucho de Ngutapa. Falava: Arütü  e’ri düa, duo, durumü, durumü! Por essa voz, eles descobriram que aquela era a onça que tinha engolido o seu pai. E, quando ela chegou mais perto, lhe perguntaram: vovó, o que você vinha falando? A onça não quis responder, mas de dentro dela veio aquela voz que dizia: Nada, nada, nada, meu neto. Nada, nada, nada, meu neto. Yoi, Ipi e sua irmã Aicüna já estavam preparados para pegar a onça. Aicüna tinha se transformado em jacaré. Eles levaram a onça para a beira do rio, mas ela escapou e pulou na água. Então o jacaré carregou a onça para o fundo e desapareceu. Ipi falou: Irmão, irmão, irmão, o que nos vamos fazer agora para achar o jacaré? O rio está muito grande, muito cheio. Vamos convidar o cupim para secar essa água?

Chamaram o cupim e ele logo apareceu. Ele era bem alto, mas o tamanho certo ninguém sabe qual é. Mas o cupim só conseguiu secar um pouco da água. Aí Ipi falou: Irmão, irmão quem nós vamos convidar agora? E resolveram convidar a cigarra. Ipi perguntou a ela: Será que você pode secar a água para nos?! A nossa irmã virada em jacaré está lá no fundo com a onça. A cigarra tentou secar o rio, jogando a água para fora, mas estava com caganeira e não pode trabalhar muito. Cada vez que fazia força para tirar água, saia cocô: pôu! pôu! pôu! Assim o trabalho não rendeu e o rio secou só mais um pedacinho.

Aí Ipi resolveu: Irmão, irmão, vamos então convidar o Cawa? Yoi concordou e eles chamaram o Cawa. Este Cawa é uma pessoa e quer dizer “gente gulosa”. Ele chegou e foi chupando a água. Foi chupando, chupando até encher as orelhas e os cabelos. Assim conseguiu secar o rio. Meus netos, agora podem descer e procurar sua irmã. Depressa! - disse o Cawa. Então eles desceram até a boca do rio e lá encontraram o jacaré descansando. Conseguiram tirar a onça da sua boca e neste momento o jacaré se transformou outra vez em gente. Voltaram para cima com Aicüna e também com a onça. Chegando lá, o Cawa falou: Já, meus netos? Então ele vomitou toda a água que tinha chupado e o rio tornou a encher. Só aí puderam tirar Ngutapa de dentro da onça. Pegaram todos os pedacinhos de carne, juntaram de novo e Ngutapa se levantou falando: Eh! Vocês me assustaram!


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