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07/02/2020,
sexta-feira
José
Ribamar Bessa Freire
Os
brasileiros aceitaram passivamente, sem questionamento, como se fosse sua,
aquela versão que o colonizador português deixou sobre os índios. (Marcos
Jiménez de la Espada, 1890)
A
genial descoberta feita pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de que
"o índio está evoluindo e se tornando um ser humano igual a
nós", ainda não foi patenteada na Associação Brasileira de
Antropologia (ABA). De qualquer forma, podemos extraoficialmente confrontá-la
com as conclusões da Comissão Científica do Pacífico que andou investigando o
assunto no séc. XIX em nome da monarquia espanhola. Assim, saberemos se essa
tendência de "humanização" faz parte dessa memória histórica,
consultando os relatórios da expedição que cruzou a cordilheira dos Andes até o
rio Napo e desceu o rio Amazonas, em 1865, para analisar a biodiversidade e as
culturas indígenas.
Vários
expedicionários deixaram depoimentos, entre eles o zoólogo e historiador
espanhol Marcos Jiménez que, por ser Espada, se torna insuspeito às hostes
terraplanistas, embora o médico e antropólogo Manuel de Almagro, por ser
cubano, possa não ser confiável. Eles passaram em setembro de 1865 por
Tabatinga (Am), quando constataram a existência de povos tão distintos como os
Ticuna, os Omagua, os Kambeba. Lá encontraram a expedição científica
norte-americana comandada por Louis Agassiz da Universidade de Harvard, com
quem trocaram informações.
Diante
da enorme diversidade cultural ao longo do rio Amazonas - diferentes línguas,
religiões, saberes, organização social, arquitetura, etc. - os espanhóis
sacaram logo de saída ser falsa qualquer conclusão que afirma "o índio é
isso" ou "o índio é aquilo", pois o índio genérico não existe,
conforme constataram in loco. Existe o Yanomami, o Krenak, o Xavante,
o Guarani. É operação idêntica à de colocar no mesmo saco, em contexto similar,
espanhóis, franceses, alemães, ingleses como se fossem todos iguais por serem
"europeus", ignorando as particularidades de cada nação. Portanto, se
faz necessário saber qual povo "está evoluindo e se tornando um ser humano
igual a nós".
O
"selvagem" desumanizado
Jimenez
de la Espada iniciou a expedição achando que iria encontrar povos "selvagens,
atrasados, luxuriosos e bestiais", como está registrado no Tratado
Descritivo do Brasil (1587) escrito pelo cronista luso do séc. XVI,
Gabriel Soares de Souza. No entanto, durante a viagem foi desmantelando os
preconceitos. Descolonizou sua cabeça ao se defrontar na época com
conhecimentos avançados equivalentes aos compartilhados hoje por Raoni e Davi
Kopenawa, que nesse momento estão dando conferências na Universidade de Oxford,
no colóquio internacional sobre políticas ambientais, realizado de 31 de
janeiro a 2 de fevereiro no Reino Unido.
A
expedição espanhola constatou que cada sociedade indígena produz saberes,
ciência, arte refinada, literatura, poesia, música, filosofia, religião, e
transita por diferentes campos do conhecimento: botânica, zoologia, medicina,
astronomia, agricultura, classificação e uso do solo, reciclagem de nutrientes,
métodos de reflorestamento, melhoramento genético de plantas cultivadas, pesticidas
e fertilizantes naturais, manejo da pesca. A expedição enviou ao Museu de
Ciências Naturais de Madri mais de 80 mil exemplares da natureza e das
culturas, que foram classificados pelos ameríndios, o que deixaria de boca
aberta Lineu, o pai da moderna taxonomia.
Portanto,
no séc. XIX as nações ameríndias estavam longe de "ser iguais" a
Bolsonaro, que não domina tais saberes. E no séc. XVI? Jiménez de la Espada,
professor da Universidade Central de Madri, que morreu em 1898, reorientou seu
estudos e dedicou os últimos trinta anos de sua vida a estudar as fontes
históricas sobre as antigas culturas americanas. Por razões até nacionalistas,
decidiu mergulhar nos arquivos para verificar o que diziam os primeiros
espanhóis que viajaram pela Amazônia, desde Vicente Pinzón, que
"descobriu" a foz do grande rio, em janeiro de 1500, antes mesmo de
Cabral aportar por aqui, passando pelas viagens de Orellana (séc. XVI) e
Úrsua-Aguirre (séc. XVII).
O
Brasil moderno
Lendo
as informações etnográficas das crônicas de viagem, Jiménez de la Espada
constatou que há 500 anos, os povos da Amazônia eram diferentes entre si e dos
espanhóis, mas já estavam repletos de humanidade. Embora preconceituoso, Frei
Carvajal, cronista de Orellana, cego de um olho, viu no séc. XVI o que
Bolsonaro não consegue ver com dois olhos no séc. XXI. Registrou organizações
sociais sofisticadas, o intenso comércio intertribal, a agricultura de várzea
que revelava o conhecimento do ciclo do rio, técnicas de armazenamento que
protegiam os alimentos durante a enchente e a cerâmica dos Tapajós, cuja beleza
ele comparou à da China e da Grécia.
O
capitão Bolsonaro nunca visitou uma aldeia indígena e certamente nunca leu um
livro sobre o tema, o que é compreensível, porque afinal "livros têm muita
coisa escrita". Então, de onde ele tirou essa ideia de que "o índio
está evoluindo e se tornando um ser humano igual a nós"? Talvez da
única indígena que ele conhece, Ysani Kalapalo, que o acompanhou na comitiva da
Assembleia Geral da ONU. Ela, realmente, parece estar se tornando um ser humano
igual a ele, mas esse fato não lhe permite generalizar.
Já
que livros "têm muita coisa escrita" e "tem que suavizar
aquilo", transcrevemos uma única frase de Darrell Posey, etnobiólogo
que viveu com os Kaiapó. Darrell, que nasceu na pátria do Trump a quem
Bolsonaro tanto venera e obedece, escreveu:
"Se
o conhecimento do índio for levado a sério pela ciência moderna e incorporado
aos programas de pesquisa e desenvolvimento, os índios serão valorizados pelo
que são: povos engenhosos, inteligentes e práticos, que sobreviveram com
sucesso por milhares de anos na Amazônia. Essa posição cria uma "ponte
ideológica" entre culturas, que poderia permitir a participação dos povos
indígenas, com o respeito e a estima que merecem, na construção de um Brasil
moderno".
O
bobo mau
O
capitão quer, no entanto, dinamitar essas pontes construídas em parceria com
universidades nacionais e estrangeiras. As organizações indígenas já se
manifestaram, entre elas, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)
que através de Sônia Guajajara protocolou representação na Procuradoria-Geral
da República contra Bolsonaro pelo crime de racismo. Seu assessor jurídico Luiz
Eloy Terena condenou o "resquício colonial que domina a cabeça do
presidente". Lideranças e intelectuais indígenas também protestaram.
O
escritor Daniel Munduruku no artigo "Quem tem medo do bobo mau?",
afirma que "não se pode esperar que nasçam pérolas de latrinas
mentais". Ailton Krenak argumenta que "quando falamos que o
nosso rio é sagrado, as pessoas dizem que é folclore; quando dizemos que a
montanha está mostrando que vai chover [...] eles dizem: não, uma montanha não
fala. Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os
seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos
esses lugares para serem resíduos da atividade industrial e extrativista".
A
artista plástica e ativista ambiental Narubia Werreria, do povo Iny (Karajá) da
Ilha do Bananal, considera o - digamos assim - pensamento de Bolsonaro "débil
historicamente, humanamente e cientificamente retrógrado" como dizer hoje
que "a terra é plana". Ela se dirigiu diretamente ao presidente:
"Jair, me compare a um animal, mas não me compare a você e à sua suposta
humanidade. Os animais conseguem ter mais empatia e racionalidade que vocês
que, para nós, são vermes que alimentam sua ganância destruindo a vida na
terra, todas as espécies e a sua própria, chamando isso de civilização".
Bolsonaro
não passaria num exame do ENEM, nem mesmo com correção revisada por
Weintraub. O que tem dentro da cabeça dele e de muitos brasileiros que o
seguem? A ideologia preconceituosa deixada pelo colonizador. Nesse caso, eles
se desnudam, mostram despreparo e ignorância. Diz-me o que pensas sobre
os índios e eu dir-te-ei quem és.
Via
Pravda.ru
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