Foto: Ricardo Beliel
cedida à Amazônia Real
31/10/2019, quinta-feira
De Amazônia Real
Manaus
(AM) – A organização União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja)
denunciou às autoridades brasileiras que o
missionário evangélico norte-americano Andrew Tonkin ingressou ilegalmente na
região onde vivem indígenas isolados
nas margens do rio Itacoaí, dentro da Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, fronteira do Brasil com o Peru. A denúncia foi registrada no dia 24 de setembro deste ano em uma carta enviada à Fundação Nacional do Índio (Funai). Até o momento, a Funai não informou se tomou providências para expulsar o religioso que, segundo os indígenas, pretende fazer contato com os isolados Korubo, povo em situação de alta vulnerabilidade territorial e sociocultural.
nas margens do rio Itacoaí, dentro da Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, fronteira do Brasil com o Peru. A denúncia foi registrada no dia 24 de setembro deste ano em uma carta enviada à Fundação Nacional do Índio (Funai). Até o momento, a Funai não informou se tomou providências para expulsar o religioso que, segundo os indígenas, pretende fazer contato com os isolados Korubo, povo em situação de alta vulnerabilidade territorial e sociocultural.
Segundo a Univaja,
indígenas do povo Matís, que transitam regularmente no território, relataram à
organização que abordaram o religioso Andrew Tonkin no dia 19 de setembro.
Tonkin estava acampado às margens do rio Itacoaí.
“Tonkin estava
acompanhado de um pastor indígena da etnia Mayoruna do lado do Peru”, contaram
os Matís à Univaja. Os indígenas Mayoruna são binacionais, pois possuem
territórios tanto no Brasil quanto no Peru. No Brasil, seu território fica no
Vale do Javari.
O presidente da
Univaja, Paulo Marubo, disse à agência Amazônia Real que a
organização comunicou a entrada ilegal de Andrew Tonkin na TI Vale do Javari,
mas até o momento não recebeu uma resposta sobre quais providências a Funai vai
tomar. Na semana passada, Paulo Marubo voltou a fazer a denúncia sobre a
presença do missionário nas redes sociais, pedindo ajuda das autoridades
brasileiras.
A Amazônia
Real apurou que Tonkin integra uma missão chamada Frontier Internacional,
dos Estados Unidos. Seu perfil é exibido no site da instituição religiosa. Ele é descrito
como uma pessoa que “faz trabalho missionário há mais de onze anos na bacia
amazônica e que seu trabalho consiste no plantio de igrejas indígenas e no
trabalho da missão de crescimento da igreja”.
A instituição
religiosa Frontier International afirma, no site, ser um
ministério independente da missão Batista Livre, “dedicado a realizar missões
culturais entre os americanos nativos da América do Norte e grupos de povos
indígenas da América Central e do Sul”. No site, a instituição mostra outros
missionários que atuam na Amazônia, com foco na região do Alto Solimões e nas
cidades de Benjamin Constant e Atalaia do Norte. “Nosso coração e objetivo no
ministério é alcançar os não alcançados entre os povos indígenas do Vale do
Javari”, relata um casal de missionários norte-americanos que também é membro
da igreja.
A Amazônia
Real entrou em contato por e-mail com a Frontier International para saber
a respeito da atuação de Andrew Tonkin, mas a missão religiosa não respondeu até
a publicação desta matéria.
No comunicado da
Univaja enviado à Funai no dia 24 de setembro, a organização indígena diz que
Andrew Tonkin entrou na TI Vale do Javari sem anuência dos indígenas, agindo
com “uma falta de respeito e agressão às autoridades”.
“A Univaja é
totalmente contra o proselitismo religioso no interior de nosso território,
considerando que nós povos da floresta temos nossos códigos e crenças milenares
e nunca foi tão necessário preservá-los”, dizia o comunicado da Univaja.
Em um depoimento
enviado à Funai, o qual a Amazônia Real teve acesso, um pastor
indígena (que pediu para não ter o nome revelado nesta reportagem) disse que
participou de uma reunião com pastores evangélicos norte-americanos na cidade
de Letícia, na Colômbia, fronteira com Tabatinga, no Amazonas. Ele disse que
Andrew Tonkin estava presente e, na ocasião, o norte-americano revelou que
chegou a ficar a 300 metros das áreas dos indígenas isolados durante a
expedição realizada em setembro.
”Andrew relatou
que usava um GPS (sistema de navegação por satélite), rádio e carregava
espingarda e celular na expedição. O missionário, no entanto, não teria
completando seu objetivo de fazer o contato com os índios isolados Korubo”,
disse o pastor indígena.
Na reunião em
Letícia, segundo o pastor indígena, o missionário Tonkin foi repreendido por
outros pastores. “Mas ao ser alertado sobre os riscos da aproximação com os
isolados, ele respondeu: ‘nem a lei brasileira e nem a Funai vão impedir a obra
de Deus’”, diz o pastor indígena.
Não é a primeira
vez que missionários invadem territórios indígenas de grupos isolados, cuja
proximidade é proibida até mesmo com povos contatados.
No início de 2019,
o missionário norte-americano Steve Campbell foi acusado de entrar no
território dos índios isolados Hi-Merimã, no sul do Amazonas, acompanhado de um
guia local. Ele chegou a ser interrogado pela Funai, mas os desdobramentos da
investigação não foram divulgados até o momento pelo órgão indigenista.
Avanço de
missionários
Paulo Marubo
confirmou à Amazônia Real a veracidade do depoimento do pastor
indígena sobre a reunião em Letícia, na Colômbia. Ele contou que alguns
religiosos alertaram o missionário Andrew Tonkin sobre os riscos do contato com
os isolados. Segundo Marubo, os riscos seriam tanto para os indígenas quanto
para o religioso, que poderia ser atacado pelos Korubo, em sinal de revide.
“O problema é que
alguns [missionários] falam que não se importam com isso [ameaça]. Dizem que
querem pregar a Bíblia e que não se importam se forem mortos. Que seus nomes
ficarão conhecidos por isso”, afirmou o líder indígena.
A liderança Manoel
Chorimpa, do povo Marubo, afirmou à Amazônia Real que Andrew Tonkin
tenta há dois anos “enfrentar a barreira da Funai”.
“Ele está sempre
por aqui, com o planejamento de entrar na terra dos isolados, dos Korubo. Se
isso acontecer, ele pode levar doenças contagiosas para os indígenas. Já
comunicamos, mas a Funai não tomou providências, ainda mais do jeito que está,
com falta de recursos, sem condições para nada”, afirmou o indígena.
Chorimpa disse que
o ingresso de Andrew Tonkin no Vale do Javari faz parte de um avanço de
missionários no território indígena nos últimos anos.
“Antes tinha a
Missão Novas Tribos do Brasil, que já havia contatado os Marubo e os Mayoruna.
Agora tem Testemunha de Jeová, Assembleia de Deus, Batista. Eles se aproveitam
que os órgãos públicos que atendem os indígenas não têm recursos. Então,
oferecem serviços, ajuda, constroem poços artesianos; também falam que vão
traduzir a Bíblia para a língua indígena. Se aproveitam da fragilidade da
Funai”, afirma Chorimpa.
A liderança Yura
Marubo ressaltou que também é contra a presença de missionários. Ele afirmou à
reportagem que “por mais de 70 anos os povos indígenas do Vale do Javari
receberam missionários em suas terras e que estes em nada contribuíram”.
“O que aconteceu
foi uma profunda transformação no modo de vida dos indígenas, causando sérios
problemas e a mudança drástica da cultura em relação como era antes. Hoje
ficamos estarrecidos que missionários continuam fazendo trabalho devastador sem
autorização dos povos indígenas, assim como das autoridades. É necessário tomar
muito cuidado com essa gente, uma vez que adentrar para filmar, tirar foto, com
isolados, pode ser mais uma chacina velada”, afirmou.
Segundo Yura, o
Vale do Javari “não é terra de aventureiros e de missionários mal intencionados
que entram para se promover”. “Não aceitamos isso, estamos mais vigilantes.
Queremos que ele (Tonkin) seja punido pelas leis brasileiras”.
Para que os
não-indígenas entrem em território indígena, a Funai exige que se cumpra uma
série de regras. O ingresso deve ser protocolado na fundação. Pesquisadores e
jornalistas brasileiros ou estrangeiros, por exemplo, devem solicitar
autorização à Presidência do órgão com a anuência dos povos indígenas.
Existem duas normas que disciplinam o
caso. A primeira tem finalidade específica à pesquisa científica, Instrução
Normativa no. 01, da Presidência da Funai, em 29/11/1995. A segunda é a
Portaria no. 177, da Presidência da Funai, em 16 de fevereiro de 2006, que visa
o respeito aos povos indígenas, a proteção de seu patrimônio material e
imaterial relacionados à imagem, criações artísticas e culturais. A entrada de missionários
evangélicos também precisa ter autorização da Funai e dos
indígenas.
O indigenista
aposentado Armando Soares, que atuou como chefe da Frente de Proteção
Etnoambiental na TI Vale do Javari entre 2003 e 2006, conta que “a Terra
Indígena é de usufruto exclusivo dos povos indígenas e que, como patrimônio da
União, é necessária a autorização da Funai e das Coordenações Regionais do
órgão”. As Frentes de Proteção
Etnoambiental são organismos da estrutura da Funai que atuam no
monitoramento e proteção dos indígenas isolados.
“Além de pescador,
garimpeiro, madeireiro, traficante de droga, as comunidades indígenas do Vale
do Javari ainda têm que enfrentar as ameaças desses pastores que insistem em
invadir e tentar contatar os isolados à revelia da Funai e do movimento
indígena. A gente percebe que são pessoas que têm acesso à literatura, que
sabem das consequências de um contato para a saúde dos isolados. São pessoas
que sabem que vão criar um problema e oferecer risco de morte aos indígenas”,
avaliou Armando Soares.
Ele alerta que a
única barreira é a presença do Estado e da Funai no território e o cumprimento
dos ritos administrativos de acesso, desde que os indígenas autorizem.
“O problema é que
as comunidades indígenas não contam com os recursos necessários para barrar [os
invasores]. Muitos acabam entrando na conversa dos caras, que oferecem
presentes, brindes, serviços, um monte de coisa”, diz Soares.
Armando diz que a
presença de missionários é recorrente e que somente quando a Funai tiver
recursos financeiros para se deslocar até as áreas é que será possível
retirá-los. Outra medida é denunciar à Polícia Federal e ao Ministério Público
Federal.
“Na época em que
eu estava no Vale do Javari, soubemos de um missionário que tentava fazer
contato com os isolados Flecheiros do rio Jandiatuba. Fui à Policia Federal que
acabou nem ido lá. Soube depois que o missionário desistiu do contato com os Flecheiros”,
contou.
No início deste
ano, o governo de Jair Bolsonaro realizou uma grande expedição de contato com
um grupo de indígenas isolados Korubo. Segundo a Funai, o
objetivo foi “proteger a integridade física dos indígenas isolados Korubo do
rio Coari e do povo Matis” e promover a dissolução de uma tensão entre os dois
grupos”. “A atividade também atendeu a demanda do grupo Korubo, contatado pelos
Matis em 2015, de rever seus familiares que permaneceram isolados sem qualquer
sinal de que estavam bem e sob risco iminente”, informou a Funai.
Conflito e tensão
Vale do Javari é a
segunda maior terra indígena do país, com 8,5 milhões de hectares. O território
tem a maior quantidade de registros de povos isolados do Brasil: são 10
referências confirmadas e quatro em estudos, segundo a Funai. Os povos
contatados são Marubo, Matís, Mayoruna, Kanamari, Kulina e Tyohom Djapá (este
de recente contato) e alguns grupos de Korubo.
O território
possui quatro Bases de Proteção Etnoambiental, como são chamadas oficialmente,
e estão localizadas nos rio Ituí-Itacoaí, rio Jandiatuba, rio Curuçá e rio
Quixito.
Trata-se também de
uma região que sempre esteve vulnerável à invasões por causa da riqueza de
recursos naturais e áreas preservadas, mas desde as eleições de Jair Bolsonaro
os ataques ao território ficaram mais intensos e mais explícitos. Os indígenas
relatam que cresceu o número de garimpeiros, madeireiros, fazendeiros,
pescadores e caçadores de animais silvestres.
No dia 22 de
dezembro de 2018, a Base de Proteção Índios Isolados
Ituí-Itacoaí foi atacada a tiros por invasores. Em 2019, a
situação ficou mais tensa com o discurso anti-indígena de Jair Bolsonaro e o
emparelhamento ruralista do órgão indigenista.
No dia 21 de
setembro deste ano, a mesma Base Ituí-Itacoaí foi novamente alvo de tiros. Foi
o sexto ataque, desde o final de 2018, segundo a Univaja.
Os ataques de
setembro aconteceram 15 dias após o assassinato do funcionário da Funai, Maxciel
Pereira dos Santos, ocorrido em Tabatinga, cidade vizinha de Atalaia do Norte,
onde está localizada a Terra Indígena Vale do Javari. O crime é investigado
pela Polícia Federal. Até o momento não foi divulgado o motivo do crime e os
nomes dos autores do assassinato.
De acordo com
Manoel Chorimpa, desde o assassinato de Maxciel, a Funai teve seu quadro
técnico reduzido no Vale do Javari.
“Foram embora
cinco funcionários da Funai. Se sentiram inseguros. Na Base Ituí-Itacoaí há
apenas dois servidores. A maioria das pessoas que estão na base são
colaboradores indígenas: Marubo, Kanamari e Mayoruna. Mas as bases ficaram sem
segurança. Tudo está em risco, as barreiras contra invasão diminuíram”, disse.
A Funai vive hoje
seu pior momento, com avanço de desmonte e controle total da estrutura do
órgão por diretores apoiados por ruralistas e contrários à demarcação de terra
indígena.
Em julho deste
ano, a presidência da Funai foi ocupada pelo delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier da Silva.
Ele foi assessor da bancada ruralista na Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) da Funai, cujo relatório recomendou a revisão das demarcações de terras
indígenas e criminalização de indigenistas e lideranças indígenas. Silva ficou
no lugar do general da reserva do Exército Franklimberg de Freitas, do
Amazonas, que foi demitido em junho, após pressão da bancada ruralista no Congresso
Nacional. Freitas já havia comandando a Funai em 2017 e 2018.
O que dizem Funai
e missionário?
A Amazônia
Real procurou a Funai para saber as providências acerca da denúncia das
lideranças do movimento indígena do Vale do Javari a respeito do missionário,
mas até o momento o órgão indigenista não respondeu. A reportagem também
indagou sobre a presença de outras missões no território, se o órgão tem
controle sobre essas atuações e se os missionários possuem autorização, mas a
Funai também não respondeu. A fundação também não enviou respostas a respeito a
estrutura técnica da Funai na Terra Indígena Vale do Javari e sobre a redução
do quadro de servidores nas Bases de Proteção informada por Manoel Chorimpa.
A reportagem fez
contato com Andrew Tonkin por meio de suas redes sociais, com envio de
mensagens, pedindo uma entrevista e a sua versão, mas ele ainda não respondeu.
Em seu perfil no Facebook, o missionário diz que mora em Atalaia do Norte desde
2014. Sua última postagem pública é do mês de agosto deste ano. Em seu perfil,
ele compartilha mensagens motivacionais religiosas [em inglês] e fala de seu
trabalho, mas não dá informações sobre sua atuação na TI Vale do Javari.
A Amazônia
Real também procurou o Ministério Público Federal no Amazonas para saber se há
procedimento instaurado sobre missionários evangélicos em terras indígenas e na
TI Vale do Javari e se está investigando especificamente a presença de Andrew
Tonkin. Quando o MPF enviar a resposta, será acrescentada nesta matéria.
Via Blog Jambo
Verde
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