A fluidez territorial na fronteira ocidental da Amazônia: as cidades gêmeas Tabatinga (Brasil) e Leticia (Colômbia)


28/06/2019, sexta-feira

Foto: G1

As fronteiras têm sido estudadas a partir de diferentes abordagens, por exemplo, a recente análise a partir da fluidez territorial, considerando-se a intensificação dos fluxos fronteiriços consequentes da atual conjuntura globalizante. O objetivo da pesquisa foi compreender a dinâmica territorial do subespaço das cidades gêmeas Tabatinga (Brasil) e Leticia (Colômbia) a partir da análise da infraestruturas que viabilizam os fluxos fronteiriços e seus reflexos no desenvolvimento econômico e social da região. O exame das infraestruturas (fixos) e do sistema de fluxos estabelecidos na escala local e extralocal permitiu verificar a evolução da fluidez territorial e sua contribuição para o desenvolvimento regional e aproximação das comunidades vizinhas.

De Confins

Ultrapassou 52 mil habitantes em 2010 (IBGE2, 2010) e Leticia, cidade vizinha colombiana alcançou 40 mil habitantes (DANE3, 2011). Juntas, estas duas cidades gêmeas fronteiriças, situadas no interior da floresta amazônica, ultrapassaram 90 mil habitantes no início desse século XXI. Um aporte populacional de 196% em trinta anos, enquanto outras localidades, num raio de até 500 km, veem suas populações encolherem.

As cidades gêmeas Tabatinga e Leticia formam um subespaço urbano conurbado (NOGUEIRA, 2004), situado à margem esquerda do rio Solimões/Amazonas, na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, interior da floresta Amazônica. Sem acesso rodoviário, localizam-se, em torno de 1.000 km, distantes de seus respectivos centros regionais mais próximos: Manaus e Bogotá (figuras 1a e 1b). Por forças geopolíticas, Tabatinga tornou-se colônia militar em 1967 enquanto Leticia já era município autônomo desde 1963. A primeira foi emancipada de Benjamin Constant em 1983 e, a segunda, elevada à capital de Departamento em 1991. Cidades diferentes no que se refere à formação socioespacial (VARGAS, 1999), porém similares quanto ao processo de ocupação e significação econômica do território baseado na exploração da borracha (OLIVEIRA, 1998; MENEZES, 2009), caucho (DOMINGUEZ, 1985), mas, sobretudo, quanto às suas relações sócio-históricas de nascença indígena anteriores ao estabelecimento dos próprios limites internacionais.

Nos dias de hoje, torna-se um desafio entender as novas formas de articulação dos subespaços amazônicos com o mundo globalizado. Uma possibilidade é sua análise a partir da fluidez territorial, entendida como a “[...] qualidade dos territórios nacionais que permite uma aceleração cada vez maior dos fluxos que o estruturam, [..][do] conjunto de objetos concebidos [...] para garantir [...][o] movimento” (ARROYO, 2001), e da densidade informacional que define o grau de exterioridade do lugar e sua propensão a estabelecer relações com outros lugares (SANTOS, [1996], 2009).

Importa-nos assim saber: como estes lugares vêm se inserindo no meio técnico-científico-informacional? Como os Estados Nacionais vêm provendo estas cidades amazônicas dos fixos4 necessários à maior fluidez requerida pelos mercados e sociedades locais?

Considerando que estes trazem a reboque uma psicosfera particular muito diferente da existente, tradicional, cabocla e/ou indígena. Enfim significam uma ação modernizante que traz a reboque naturais crises de transição e suas consequentes repercussões sociais e espaciais. Nesse sentido, o presente artigo traz à luz um inventário dos fixos que dão suporte à fluidez territorial do subespaço Tabatinga-Leticia, viabilizando fluxos na escala local e extralocal.

A pesquisa ancorou-se teórica e metodologicamente nos conceitos: formação socioespacial (SANTOS, [1979], 2008a); fluidez territorial (SANTOS, [1994], 2008c; [1996], 2009; ARROYO, 2001); faixa de fronteira e cidades gêmeas (MACHADO, 2005; OLIVEIRA, 2005; STEIMAN, 2002); geopolítica (ANDRADE, [2001], 2007; COSTA, [1988], 1997; RAFFESTIN, [1980], 1993) e Amazônia (BECKER, 1994; [2004], 2009).


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