Foto: Antonio Cruz/Agência
Brasil (Militares
promovem ações humanitárias na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru)
Alcoolismo, drogas, brigas e assaltos fazem
parte da rotina dos índios que pedem uma solução para os problemas nas
comunidades de Umariaçu I e II
Em meio as atividades do exercício de
simulação de ajuda humanitária, denominado AmazonLog, os Ticuna, o mais
numeroso povo indígena na Amazônia brasileira, reclamam da violência nas duas
comunidades que ficam nos arredores de Tabatinga, no Amazonas, na fronteira com
o Peru e Colômbia.
Tabatinga (AM) - Nas comunidades de Umariaçu I e II, onde os
militares realizaram na quarta-feira (08/11) atividades de atendimento de
saúde, vivem cerca de oito mil habitantes. Alcoolismo, drogas, brigas e
assaltos fazem parte da rotina dos índios que pedem uma solução para o
problema.
As duas comunidades ficam localizadas nos
arredores de Tabatinga. O acesso é feito por estradas de barro e, quando chove,
tudo fica coberto de barro. Casas de madeira dividem com outras de alvenaria as
ruas da localidade, considerada uma das maiores do povo Ticuna na região. Uma
ponte sobre um igarapé, que serve como um pequeno porto, divide as duas populações
ticuna no município.
De acordo com o cacique de Umariaçu II,
João Pedro, apesar da proibição, é comum os jovens acabarem envolvidos com
álcool e outras drogas. Um dos principais problemas são as frequentes brigas
entre grupos de jovens de Umariaçu I e II. Um dos locais para o confronto é uma
escola abandonada em Umariaçu II, que serve para o uso drogas. “De noite as
pessoas vêm para cá, gente da comunidade mesmo, é muita droga, álcool,
papelote, cocaína e muito barulho. Precisamos da força das autoridades porque
nós hoje estamos esquecidos”, o cacique.
O problema não vem de hoje. Em dezembro de
2015, a Justiça Federal em Tabatinga atendeu a um pedido do Ministério Publico
Federal (MPF) no Amazonas e determinou que o estado levasse policiamento
ostensivo para as comunidades. Mas, de acordo com o cacique, isso não foi
feito.
“A gente queria conseguir uma patrulha para
a comunidade, mas a polícia não está vindo. Eles dizem que não vêm porque aqui
é terra indígena e eles não poderiam entrar. Mas a Funai autorizou. Daí a gente
vai lá e eles dizem que a questão é com a Funai”, reclamou o cacique.
Enquanto isso, os líderes de cada rua
tentam conversar com os moradores para resolver as diferenças. “O problema não
é entre os jovens de uma mesma comunidade, mas quando se encontram os de lá
(Umariaçu I) com os daqui”, disse à Agência Brasil o ticuna Elias Grande.
“Acho que, por conta das bebidas, drogas,
essas coisas que eles usam, eles acabam se enfrentando com outros grupos da
comunidade. Uma vez por mês, a gente reúne as pessoas toda da rua e tenta
incentivar a não ter brigas”, disse.
Por conta da insegurança, os índios pensam
em promover a própria patrulha. O mesmo expediente já havia sido utilizado em
2009, quando foi montado um esquema de ronda nas comunidades, envolvendo cerca
de 50 pessoas. Inclusive com local para detenção de quem praticava algum
delito. “Fizemos uma reunião aqui da comunidade e pensamos em fazer a nossa
segurança”, comentou João Pedro. “Antes de a gente ter feito essa segurança,
aqui era pesado”, contou João Pedro.
A proximidade com a cidade não é vista como
um problema para os ticuna. Segundo o cacique, a isso facilita a venda de
mandioca, abacaxi, banana, feijão. “É bom porque se a pessoa tiver abacaxi e
cacho de banana ela vai vender, é perto. Mas tem gente do outro lado da cidade
que traz algumas coisas e ninguém vê e isso é ruim (drogas)”, disse o cacique.
Os Ticuna afirmam que, apesar das vendas,
ainda falta trabalho, o que contribui para a onda de violência. Sem ter
trabalho, os mais jovens acabam se envolvendo com o álcool e outras drogas.
“Não tem emprego, a prefeitura não contrata. Só contrata quem está do mesmo
lado da política e a maioria aqui segue abandonada”, disse.
Enquanto a questão da segurança não
encontra uma solução, os índios cobram a reforma da escola abandonada. “Essa
escola aqui tem mais de seis anos abandonada. Fizeram outra escola e deixaram
essa aqui. A gente quer que se construa novamente a escola, para dar um espaço
para as pessoas da comunidade estudar”, reivindicou.
De acordo com a chefe da divisão técnica da
unidade da Fundação Nacional do Índio (Funai), Doroteia Fernandes, a falta de
infraestrutura e de segurança representa problema crônico da comunidade.
Doroteia disse à Agência Brasil que o quadro fica mais complexo diante da falta
de profissionais da Funai para fazer a fiscalização. “Atendemos comunidades espalhadas
ao longo de 15 municípios e temos pouca gente para fazer isso. Temos três
viaturas, mas uma está parada por falta de manutenção”, disse.
Na sexta-feira (10/11), está prevista uma
reunião dos índios com o presidente interino da Funai, general Franklimberg
Ribeiro de Freitas. De origem indígena, Freitas, que é militar da reserva, já
atuou no combate a crimes ambientais, tráfico nas fronteiras e apoio às
comunidades indígenas.
População
tem consultas médicas e vacinação
Durante a quarta-feira (08/11), as duas
comunidades receberam atendimento de saúde levado por militares que participam
do AmazonLog17, em parceria com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai)
e universidades. Houve consultas médicas e vacinação para crianças de zero a
quatro anos.
“A ação está dentro do exercício na parte
em que nos compete fazer um levantamento epidemiológico e sociológico da região
e essa área foi levantada como muito carente, por isso demos prioridade”, disse
o general Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, comandante-geral do
AmazonLog.
Com dores no estômago, Fernando Alexandre
Benedito, morador da comunidade há 43 anos, conseguiu uma consulta. “O problema
aqui é que não temos remédio no posto, não tem nada. Estou com um problema e
toda vez que trabalho sinto dor na barriga. Para isso está sendo bom o
atendimento, consegui consultar e teve remédio. Gostaria que voltassem mais
para fazer atendimento na comunidade”, afirmou o ticuna.
Montada em conjunto com o exército da
Colômbia, uma estrutura recreativa dá um pouco de lazer às crianças. De acordo
com o tenente Marcelo Melo, coordenador do atendimento na comunidade, a
previsão era de que dois mil atendimentos fossem realizados. Além de Umariaçu,
também houve ações de atendimento de saúde nos quatro pelotões de fronteira do
Exército na região: Ipiranga, Estirão do Equador, Palmeiras do Javari e Vila
Bitencourt, e nas comunidades indígenas Vila Mormes e Aldeia Lobo.
“A gente trouxe para cá médicos, dentistas,
farmacêuticos. A Defesa Civil e estudantes de medicina da Universidade Federal
do Amazonas também participam. A intenção é conseguir promover alguma melhoria
nas condições de saúde da população. Não resolve tudo, mas é uma ajuda”, disse
o tenente.
Asfalto
recuperado
Uma operação para tapar buracos foi realizada
pelos militares nas proximidades da área central de Tabatinga. Com maquinário e
material trazidos de Manaus, eles recuperaram algumas pista da cidade. A equipe
foi a mesma que trabalhou na construção da base logística utilizada pelas
tropas que fazem parte do exercício militar.
Segundo o general Guilherme Cals, para os
trabalhos do exercício de simulação foram trazidos de Manaus quase 2,5 mil
toneladas de materiais, numa ação que envolveu 90 pessoas. “Tivemos todo um
trabalho de acondicionamento para não ter vazamentos. No contexto da Amazônia
isso envolve um planejamento de no mínimo seis meses. Aqui a gente tem que
trabalhar por verão: são seis meses de verão e seis de inverno, se o material
não estiver aqui no pé da obra, no verão não vamos ter como trabalhar em razão
das chuvas e do regime de cheia dos rios”, explicou.
Exercício
militar
Marcado para o período de 6 a 13 de
novembro, o Guilherme Cals multinacional de simulação de ações de ajuda
humanitária na Amazônia visa criar diretrizes para socorro a vítimas em caso de
catástrofes na região da tríplice fronteira. Serão realizadas simulações
atendimento em casos de incêndios florestais, terremotos, secas, enchentes,
acidentes com embarcações e também de medidas humanitárias para casos de grande
contingente de deslocamentos humanos, como de refugiados.
No total, devem participar da simulação
cerca de duas mil pessoas, dos quais, cerca de quinhentas são estrangeiras.
Além de militares do Brasil (cerca de 1.550), Colômbia (150), Peru (120) e Estados
Unidos (30), observadores de mais de 20 países devem acompanhar as ações, entre
eles, da Alemanha, Argentina, Chile, Equador, México, França, Reino Unido,
Espanha, Rússia e Venezuela.
Também participam funcionários de órgãos
federais e estaduais como a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária
(Infraero), a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Polícia Federal, a Receita
Federal, entre outros.
Folha PE
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