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| Moça do Umari |
Passou um ano. A árvore já estava em tempo de botar flor e fruto. Ipi
cuidava muito dela, varria, capinava, deixava tudo limpo. Um dia, Ipi foi ver e
disse para Yoi: Veja, começou a florar o
primeiro olho.
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| Pesca do Yoi |
Não se preocupe tanto com essa fruta do umari - disse Yoi. Quando Ipi olhou outra vez, o umari já tinha nascido. Esse umari vai ser meu — disse ele. Não se preocupe tanto. Cale a boca - falou Yoi. A primeira fruta já
estava amarelando, uma só. Ipi ficava todo tempo olhando aquele umari. Nem
dormia, só olhava, olhava. Ele sempre dizia: Esse vai ser meu. Pode ficar
- respondia Yoi. Depois de vários dias esperando que o umari caísse na sua mão,
Ipi começou a ter fome, sono e sede. Um dia não agüentou e disse para Yoi: Maninho,
acho que vou caçar, porque tenho fome. Quando cair a fruta, você não pega.
Deixe aí que eu volto. Yoi estava se embalando na maqueira e de repente o
umari caiu. Ipi ainda estava no mato caçando. Quando Yoi foi ver, esse umari
era uma moça. Ele foi conversar com ela. Era bonita e nova. Chamava-se Tetchi
arü ngu ‘ü, que quer dizer: “moca do umari”. Yoi pegou a moça e levou para casa
para ser sua mulher. Lá diminuiu Tetchi arü ngu’ü e escondeu-a numa flauta de
osso. Quando Ipi chegou do mato já era tarde. Começou a arrumar a zarabatana e
foi logo olhar o umari. Ele viu que a fruta não estava mais lá e perguntou para
Yoi: Irmão,
você viu o umari cair? Ele não está mais aqui. Não foi você que tirou?
Eu não sei de nada. Alguém deve ter achado - respondeu o outro, tentando enganar o irmão.
Anoiteceu e Ipi não conseguia dormir. Ele sabia que o umari era uma moça e estava desconfiado que Yoi tinha guardado
ela. A moça e Yoi estavam conversando e rindo. Ipi ouviu e perguntou com quem
ele estava: É com a vassoura que eu estou
rindo, não estou com sono e peguei uma vassoura - disse Yoi. Ipi então foi
pegar uma vassoura, mas a sua não ria. A moça achou graça disso e Ipi tornou a
perguntar: Quem está aí?
É um banco
que está aqui e eu estou brincando com ele - respondeu Yoi. Aí Ipi foi pegar um banco, mas não aconteceu nada. Ele
continuou intrigado. Yoi disse outra vez que estava brincando com o quiricá.
Mas Ipi experimentou e de novo não aconteceu nada. O quiricá não riu. A moça
tornou a rir e Yoi também. Ipi ficou muito intrigado.
Um dia, Yoi foi caçar e Ipi ficou em casa para procurar a moça. Yoi
sabia o que o irmão pensava. Ipi achou que ela ia aparecer para ele. Esperou e
nada. Resolveu fazer alguma coisa para atrair Tetchi arü ngu ‘ü. Trouxe
peixinhos lá do porto e botou-os no forno quente. Os peixinhos pulavam e ele
dizia: Tchautarucunhe, tchautaracunhe,
tchautaracunhe!
A mulher de Yoi achou graça e Ipi ouviu sua risada, mas não a encontrou.
Ele repetiu essa brincadeira por quatro vezes, assando mais peixinhos, mas não
encontrava a moça. Desconfiou que ela deveria estar na flauta. Procurou por
duas vezes. Na segunda vez, encontrou a flauta e a sacudiu até que Tetchi arü
ngu’ü saiu. Logo Ipi beijou a moça e habitou com ela. Na mesma hora sua barriga
encheu. Ipi tentou diminuir a moça para colocá-la dentro da flauta, mas não
deu, porque ela já estava barriguda; Aí, ele ficou com medo do irmão, que já
estava para chegar. Resolveu sair de casa para encontrar Yoi. No caminho, viu a
fruta de paxiüba e pegou o pó para encher a sua pica. E pensou: Agora Yoi não vai saber que habitei com a
mulher dele. Quando eles se encontraram, Ipi disse: Irmão, irmão, irmão. Olhe minha pica, está bem cheinha! De repente,
o pó da fruta de paxiüba caiu. Yoi não gostou disso e falou: Olhe, você está doido mesmo.
Mas, maninho, eu não fiz nada para sua mulher.
Quando chegaram em casa, Yoi viu a mulher já barriguda. Ipi ficou com
vergonha e perguntou: o que vamos fazer
agora? Sua mulher já está barriguda. Eu não sei, agora é você quem sabe.
Quando estava quase na hora de nascer a criança, Ipi quis saber o que fazer. E
Yoi falou: Agora você é quem sabe. Vá
apanhar fruta de jenipapo e depois rale e pinte seu filho. Se o filho fosse
meu, não seria assim. Tetchi arü ngu ‘ü não iria sofrer tanto, não derramaria
tanto sangue, não doeria. Mas você é doido, por isso nosso povo vai sofrer dor.
Agora vai ser tudo diferente. Aí o menino nasceu. Ipi foi procurar jenipapo
para pintar o corpo da criança.
Para castigar o irmão, Yoi mandou os jenipapos para longe. Ipi andou
muito e sua mulher ficou em casa passando fome. Yoi não lhe deu nada para comer
e beber. Quando Ipi chegou sem as frutas, perguntou a Yoi onde encontrá-las: Vá lá na nossa capoeira que tem muito
-disse Yoi. Mas Ipi encontrou só árvore sem fruta. Quando contou isso para o
irmão, este mandou Ipi voltar e subir na árvore bem no alto. Subiu, mas só viu
dois frutos. Perguntou a Yoi: Chega
esses? Quantas vezes você fica me perguntando coisas? Não lhe disse que o filho
não é meu? Vá lá e pegue uma fruta só - respondeu Yoi. Mas toda vez que Ipi
tentava alcançar a fruta, Yoi fazia a árvore crescer mais e mais. Cresceu até
passar das nuvens e ele subindo atrás. O pé de jenipapo quase que chega na
outra terra, no outro mundo. Para impedir que Ipi subisse. Yoi mandou crescer
uma orelha-de-pau ao redor do tronco. Aí Ipi resolveu se transformar em formiga
para poder passar pela orelha-de-pau. Conseguiu passar e lá em cima ele
enxergou o rio e viu os Cambewa (Awane). E disse para Yoi: Meu irmão, no rio tem muito Awane. É
bom a gente ter cuidado com eles. Finalmente, Ipi conseguiu pegar o
jenipapo.
Yoi não gostou do que Ipi tinha falado e fez crescer a orelha-de-pau
outra vez. Ipi ficou pensando o que fazer: Vou
virar urna tucandeira para descer e também vou diminuir esse jenipapo. Pegou
o jenipapo na boca e desceu. Lá embaixo se transformou em gente de novo.
Yoi queria castigar o irmão e pensou que ele não ia conseguir trazer a
fruta. Mas, chegando em casa, Ipi disse: Eu
sou homem mesmo, porque agüentei esse trabalho todo. Sou homem corajoso. Ipi,
então, quis saber onde ralar o jenipapo. Mas mandou Ipi buscar folha de ngu para
ralar o jenipapo em cima dela. Três vezes Ipi perguntou se precisava ralar
mais. Yoi respondia sempre que sim. Na quarta vez, ele já estava ralando o
braço dele mesmo. O jenipapo tinha acabado. Aí perguntou para Yoi: Irmão, irmão, onde eu vou parar?
Ainda tem. Pode ralar com força - disse Yoi. Então Ipi gritou de dor e ralou todo
seu corpo. Aí, Yoi mandou Tetchi arü ngü preparar a massa do jenipapo e botar
no bure, cesto, sem perder nem um pedacinho. Com esse jenipapo ela
pintou o filho e depois foi até o porto para jogar a borra na água. Tudo isso é pedaço do Ipi que você jogou na
água - disse Yoi para a mulher.

