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LUIZ ATAÍDE

História de Tabatinga (AM) e região contada por Luiz Ataíde, morador ilustre de Tabatinga (AM).

A 2ª Guerra Mundial e o Alto Solimões

06/09/2015, domingo

Foto: Arquivo pessoal

Por Luiz Ataíde
A 2ª Guerra Mundial, iniciada em 1º de setembro de 1939, com a invasão das tropas nazistas de Adolf Hitler à Polônia, terminou em 8 de maio de 1945, com a rendição incondicional da Alemanha. Portanto no dia 8 de maio de 2015, comemorou-se 70 anos do fim da 2ª Guerra Mundial. Daí vem a pergunta, o que o Alto Solimões tem a ver com isso? Eu diria muitas coisas.

Com o fim da decadência da 1ª fase da borracha, iniciada nos primeiros meses de 1910, o Amazonas vivia estagnado na sua economia. A 2ª Guerra, com o Japão como aliado da Alemanha, fechava a entrada dos países ocidentais à borracha produzidas no continente asiático, forçando as indústrias mundiais a se voltarem novamente para a Amazônia em busca das seringueiras nativas.

Os seringais do Vale do Javari são novamente invadidos por milhares de nordestinos, aparecem os patrões, os aviadores, os regatões, os barracões nos seringais, Remate de Males principal cidade do Solimões na foz do Itecoaí fervilhante de gente, retomando seus dias de opulência, com hotéis lotados, agência bancária, consultórios médicos, de dentistas e de advogados, cabarés, bares, casas de sinucas, farmácias, alfaiataria, lojas de artigos de luxo, etc...

O Acordo de Whashington firmado entre os Estados Unidos e o Brasil, possibilitou a injeção de milhões de dólares, para dar apoio à produção da borracha e atendimento no local de trabalho do seringueiro com a criação do SESP (Serviço Especial de Saúde Pública), serviços que nunca foram cumpridos, os seringueiros morriam nos seringais, sem jamais terem visto um médico, nem remédio para malária, nem purgante pros meninos.

Terminada a 2ª Guerra veio novamente o caos, encerrando a 2ª Fase da Borracha, as promessas governamentais com passagens de volta e de graça para seus Estados de origens, foram esquecidas. O êxodo era inevitável para os povoados fronteiriços. Remate de Males aos poucos era abandonada nascendo Atalaia do Norte.

Benjamin Constant, outrora chamada Esperança se expandia com tanta gente. A Ilha do Aramaçá tornou-se o maior celeiro agrícola. O povoado do Marco-Divisório diariamente recebia balsas com família de retirantes do Javari, atraídos por Letícia ao lado, onde o governo colombiano começava a investir em obras, mas não tinta gente, o operário.

A 2ª Guerra Mundial deixou essa miscigenação de raças, a cultura musical com a rabeca, sanfona, bandolim, repentes: danças do xóte rodado, baião, xaxado, xerém; o bumba-meu-boi, as quadrilhas; a religiosidade aos santos com levantamento de mastros (São Sebastião, Santo Antonio, São João Batista, Santa Luzia, São Francisco, etc); as benzedeiras, parteiras, rezadores, etc...

Consideramos como o fator mais importante, o aumento populacional da região, a leva de gente de todas matizes, veio contribuir para preencher o imenso vazio demográfico, situação sempre citadas nos relatórios dos Presidentes da Província; com o fluxo migratório do pós-guerra, as fronteiras do Solimões e Javari, foram decisivos na ocupação permanente do espaço geopolítico a oeste do Estado do Amazonas.



Crônica sobre os 145 anos de Letícia

Essa região Amazônica, outrora habitada e dominada pela grande nação dos Omáguas, cujas margens do nosso majestoso Amazonas, viram Francisco Orellana e sua frota, singrarem suas caudalosas águas, descobrindo novos horizontes para a civilização, mas também tornando-se palco de disputas pelo seu domínio e posse.

Região que de distante acompanhou as lutas sangrentas e o aparecimento de heróis pela independência do Vice Reinado da Nova Granada e do Vice Reinado do Peru, sob a liderança de Simon Bolívar e de José de San Martin. Nossa região permanecia alheia e solitária até o término dos movimentos latino-americanos pela sua emancipação e cuidar de seus próprios destinos, cortando os laços coloniais para sempre com a monarquia espanhola e portuguesa.

Foto do livro de Mararay
Somente após o Tratado firmado entre o Brasil e Peru em 23 de Outubro de 1851, eis que na imensa planície amazônica, perdida no meio da selva, nasce a pequenina cidade de LETÍCIA em 25 de Abril de 1867, cujo significado é alegria, para ser um simples posto fiscal. Ao seu lado, já se registrava a existência de uma fortaleza brasileira chamada São Francisco Xavier de Tabatinga, fundada já havia alguns anos atrás em 1766. Nascia como uma irmã menor, com suas casas cobertas de palha, precisando de mãos hábeis e constantes para ajudá-las em seus primeiros passos. Mais ao seu lado e mais próximo, anos depois, surge o povoado do Marco-Divisório, composto de moradores civis, a maioria seringueiros que fugiam dos Rios Javary, Itecoaí, Ituí, Curuçá e Quixito e outros afluentes menores, após o declínio do primeiro ciclo da borracha, quando surgiu a borracha produzida nas colônias inglesas da Ásia, cujas sementes foram contrabandeadas do nosso Amazonas.

Foto do livro de Jorge Picón Acuña
LETÍCIA e o povoado do MARCO-DIVISÓRIO, onde atualmente localiza-se a Rua Marechal Rondon, independentes de ações governamentais, deram-se as mãos para sobreviverem mutuamente, superando as dificuldades regionais, onde a presença do Estado tanto da Colômbia como do Brasil eram quase nulas ou mesmo inexistentes. Somente a partir dos anos 50, o governo colombiano começou a olhar com mais carinho para a prima pobre de Letícia, com investimentos governamentais, mas faltava o operário que ajudasse na sua edificação, aí mais uma vez o Marco deu sua contribuição o que já fazia antes, oferecendo os serviços de carretilheiros, carregadores de água para as casas, as célebres lavadeiras com roupas passadas no ferro de carvão e na goma, as cozinheiras, os extratores de madeira roliça e de palha para as casas, os vendedores de lenha para o vapor Narinho e para os navios movidos a roda como a Pasto e Neiva da Companhia NAVENAL, que a faziam a linha Puerto Assis – Letícia, os coletores de lixo como o célebre Abel Bundinha, cearense e antigo seringueiro, contratado pela Alcaldia, que com sua carroça e mula marrom que a chamava de ¨ Princesa ¨, saía pelas saudosas ruas de Letícia, com seu apito na boca gritando com sua voz rouca e já cansada pela idade ¨Aseo, Aseo¨. Atraindo com novos investimentos o aeroporto, porto flutuante para navios transatlânticos, prédios públicos, escolas, aumento do efetivo militar, novos moradores para a Vila do Marco, vindos da ilha do Aramaça, de Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, dar sua contribuição laboral para esta cidade que nos viu crescer chamada Letícia.

Foto do livro de Jorge Picón Acuña
Cidade hospitaleira e irmã em todos os sentidos, crescemos juntos nas mesmas dificuldades, superando com nossa criatividade os entraves que nos foram impostos. Que bom é celebrar teu aniversário neste 25 de Abril; lembrar o dia em ficamos mais estreitamente ligados territorialmente, quando em 1957 foi aberta la carretera del Marco, hoje Avenida Internacional, unindo-a ao povoado do Marco, cortando os potreros de Pancho Landázuri e da Armada Nacional, permitindo a entrada de caminhões para apanhar lenha, tijolos, produtos agrícolas e os trabalhadores do Aerodromo, comandados pelo Dr. Londonho. Que alegria pendurar-se na trazeira da bolqueta do Pastuso, do chéchére do Espadita ou no pomposo e bonito caminhão Dodge de Dom Alfonso Galindo. Essa estrada que tinha como referência o saudoso Balalaica, trazia também a noite ou nos fins de semana os jovens leticianos que vinham dançar nas festas animadas pelo sanfoneiro ZÉ BATISTA e namorar as mais bonitas garotas do MARCO, que com seus perfume tabu, brilhantina glostora nos cabelos e um pielroja na mão, as conquistavam. Assim, pela união matrimonial entre colombianos e brasileiras mais ainda se estreitaram nossos laços de união. Que dizer na educação, quando em 1956 chegaram em Letícia os irmãos de San Juan Bautista de la Salle, fundando o Liceu Orellana com os Hermanos Camilo, Timoteo, Manuel e José, ano em que no MARCO já não possuía escola, a escola construída durante o Governo de Álvaro Maia em 1940, já tinha caído por falta de manutenção da Prefeitura de Benjamin Constant. Letícia com os irmãos La Salle, recebia as crianças do MARCO de braços abertos, sem qualquer restrição, com os quais muitos se alfabetizaram, aprendendo as primeiras letras; difícil era ter que agüentar aos domingos os intermináveis sermões do Monsenhor Marceliano Canhes, em que todos participavam da missa com suas camisas e calças brancas, a gravata preta e os sapatos pretos brilhando.

 
Foto do livro de Mararay
 
Aos sábados a noite participar das ¨veladas¨ de boxe na esquina da ¨ Casa Cueva ¨, para ganhar um peso quem nocauteasse o outro. Como esquecer de personagens como o ¨ Matin-tin-tin ¨ do ¨ Maní Tolau ¨, das ¨ vacas locas ¨ ou penetrar na festa dos adultos na casa do ¨Chepe¨ Erazo para ver o Chepe e o Manuel Araújo no saxofone, o Marcelino Dominguez no clarinete, o Alexandre Gonçalves na maraca, o Pacho Vela no acordeón, o Picón fazer malabarismo na bateria e o Manuel ¨Caimán¨, com sua voz grave cantar ¨muchachita linda, muchachita hermosa¨, ou repetir os boleros de Bienvenido Granda.

Foto do livro de Jorge Picón Acuña
Que dizer no esporte, onde aos domingos enfrentavam-se o Deportivo Cruzada e Tabatinga na saudosa cancha popular. Que bom era ver jogar por Tabatinga o irmãos Jaime e Izidio, o Sardote, o Vilmar Lima tantos outros e o inesquecível ZECA PETECA que os leticianos os chamavam de CIGARRILHO, com seus dribles desconcertantes, o maior e melhor futebolista que Tabatinga já teve, cujo nome foi escolhido em consultas popular em 1995, para dar nome ao estádio de futebol de Tabatinga, porém esta homenagem lhe foi usurpada. Jogadores da Cruzada como Libório Guzmán, Marcelino Domingues, Sixto Arbelaes, Luis Valencia e tantos outros, que tantas alegrias davam nas tardes de domingo, ao público que assistia em pé ao redor do campo de futebol.

A ti querida Letícia, na data de teu aniversário, desejamos que sejas sempre bem cuidada, que teus governantes sejam verdadeiros tutores das tuas mais justas aspirações, pois és a estrela que brilha com maior intensidade no sul da Colômbia e nas margens desse grandioso Amazonas, que juntos com nossas cidades do Alto Solimões, nos irmanamos e compartilhamos no dia a dia as tristezas, alegrias e a persistência de querermos sempre o melhor para ti e para o teu povo.

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